Porque há tanta polêmica sobre o TDAH?

Porque há tanta polêmica sobre o TDAH?

Erros de diagnóstico, excesso de medicalização infantil, uso e compra ilegal da medicação, etc. Infelizmente, são muitas questões sensíveis envolvidas com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), não apenas no Brasil.

A compra ilegal da medicação e seu uso para outras finalidades – que não o tratamento do TDAH –, por exemplo, contribuem com a estigmatização e muitas vezes acabam constrangendo aqueles que, de fato, precisam do tratamento para seguir suas vidas sem os prejuízos causados pelos sintomas do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Listamos abaixo algumas das perguntas mais comuns sobre o TDAH, confira!

1. O TDAH É UMA DOENÇA “NOVA”?

O fato de o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ter recebido diversos nomes ao longo dos séculos faz com que o nome TDAH, como se conhece hoje, seja muito recente.1-5 Essa é uma das razões pelas quais algumas pessoas ainda acreditam que a doença foi “recentemente inventada”, ou que sua existência é resultado exclusivo da “hiperestimulação da sociedade moderna”.

O fato de o diagnóstico do TDAH ser predominantemente clínico, ou seja, a partir da observação dos sintomas pelo médico,2 era um argumento constante daqueles que desconfiavam da existência do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Hoje, entretanto, as imagens de ressonância magnética e avaliações de biomarcadores específicos já são capazes de demostrar as alterações cerebrais entre pessoas com e sem TDAH.6,7

Vale ressaltar, que o diagnóstico predominantemente clínico não ocorre exclusivamente para o TDAH, como para diversos outros transtornos neuropsiquiátricos, como a doença de Alzheimer, doença de Parkinson, depressão, transtorno bipolar, entre outros.

2. AS CRIANÇAS ESTÃO SENDO MEDICADAS DE FORMA EXCESSIVA?

De fato, há crianças sendo erroneamente diagnósticas, de acordo com Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. Por outro lado, há crianças que têm TDAH, mas não têm acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequados para o transtorno. Entenda!
 

  • Falta de diagnóstico: estimativas apontam que, em média, cerca de 50% dos indivíduos menores de 18 anos de idade com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ainda não foram diagnosticados e não estão em tratamento8 – esse número pode ainda ser maior em regiões mais pobres, onde há menos acesso à saúde de forma geral. Se considerarmos a população adulta (maior de 18 anos), o cenário é ainda pior: até 80% daqueles com TDAH não recebem o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento adequado.9-11
  • Excesso de diagnóstico: segundo estudos, pode sim haver um excesso de diagnóstico em outros grupos da população. Em 2014, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos reportou que, por lá, uma a cada 9 crianças havia recebido o diagnóstico de TDAH (um aumento significativo em relação a década anterior). Ainda nos Estados Unidos, pesquisadores da Universidade de Berkeley, na Califórnia, acreditam que pode haver uma relação entre o excesso de diagnóstico e a pressão cada vez maior para que as crianças tenham melhor desempenho escolar.12 Por fim, alguns dados de excesso de diagnóstico podem estar relacionados a indivíduos que não têm TDAH, e fazem uso errado da medicação para outras finalidade que não o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
  • Erros de diagnóstico: o diagnóstico do TDAH é bastante complexo e há uma série de doenças que apresentam sintomas similares e podem ter seu diagnóstico confundido. Além disso, há diversas doenças que estão relacionadas ao TDAH, que se manifestam simultaneamente, no mesmo paciente (chamadas comorbidades), e que também dificultam o diagnóstico correto. Entre elas estão os distúrbios do sono, transtorno bipolar, autismo e transtorno de processamento sensorial, dentre outras.13

Por tudo isso, é fundamental que o diagnóstico do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade seja feito por um médico especializado, e que haja uma relação de confiança entre os pais, o paciente e o médico, para garantir o manejo adequado do quadro.

3. O MEDICAMENTO PARA O TDAH PODE “TURBINAR” O CÉREBRO DE PESSOAS QUE NÃO TÊM O TRANSTORNO?

Segundo uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a medicação para TDAH “não promove a melhora cognitiva em pessoas saudáveis” (ou seja, naquelas que não têm TDAH). A pesquisa foi realizada após o crescimento no uso indevido da medicação por estudantes e pessoas sem o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade que prestam concursos (chamados de “concurseiros”), por acreditarem que teriam mais chances de sucesso, ou que ficariam “mais inteligentes” com o uso da medicação.14

A pesquisa da Unifesp comprovou que jovens sem TDAH não tiveram atenção beneficiada, nem a memória ou as funções executivas (capacidade de planejar e executar tarefas).10 Por isso, além de ilegal, é também ineficaz o uso de medicamentos para o tratamento do TDAH por pessoas saudáveis sem o transtorno.

4. O medicamento para o TDAH pode causar dependência química?

Diversos estudos relatam que o risco de alcoolismo e da dependência química de drogas ilícitas é até 10 vezes mais comum em pessoas com o TDAH, em comparação àquelas sem o transtorno.15 Segundo pesquisadores, isso ocorre porque as pessoas com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade tendem a ser mais impulsivas e a ter mais problemas de comportamento, fatores que podem contribuir com o abuso de drogas.11

O tratamento adequado do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade com medicamentos, em conformidade com prescrição médica e as recomendações da bula, pode diminuir o risco do abuso de drogas ilícitas, ao aliviar os sintomas do TDAH, como a impulsividade. Um estudo demonstrou que, quanto antes se inicia o tratamento do TDAH com psicoestimulantes na infância, menores os riscos do uso de drogas na adolescência.16

Entretanto, quando utilizado de forma incorreta, ou seja, em doses e por vias não recomendadas, os medicamentos estimulantes podem induzir o aumento da dopamina no cérebro de forma exageradamente rápida, o que leva ao risco da dependência química.17 Mas atenção: essa possibilidade só existe quando há uso incorreto e/ou abuso da medicação. Dessa forma, as pessoas com TDAH que utilizam a medicação via oral conforme a prescrição médica para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade não estão sob o mesmo risco da dependência química.

Quer saber mais sobre TDAH?
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Referências
1. Crichton, Alexander: An inquiry into the nature and origin of mental derangement: comprehending a concise system of the physiology and pathology of the human mind and a history of the passions and their effects. Vol I. London: printed for T. Cadell, Junior, and W. Davies, in the strand. 1798.
2. Site da Associação Brasileira de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Disponível em http://www.tdah.org.br/br/artigos/textos/item/964-entenda-o-tdah-nos-crit%C3%A9rios-do-dsm-v.html. Último acesso em 13 de agosto de 2015.
3. Site da Associação Brasileira de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Disponível em http://www.tdah.org.br/br/artigos/textos/item/964-entenda-o-tdah-nos-crit%C3%A9rios-do-dsm-v.html. Último acesso em 13 de agosto de 2015.
4. Some abnormal psychical conditions in children: the Goulstonian lectures. The Lancet, 1902;1:1008-1012.
5. Site do The American Journal of Psychiatry. Disponível em http://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/ajp.97.5.1194. Último acesso em 9 de agosto de 2015.
6. Site do National Institutes of Mental Health. Disponível em http://www.nimh.nih.gov/news/science-news/2007/brain-matures-a-few-years-late-in-adhd-but-follows-normal-pattern.shtml. Último Acesso em 29 de agosto de 2015.
7. Site HealthLine. Disponível em http://www.healthline.com/health/adhd/the-brains-structure-and-function#1. Último acesso em 29 de agosto de 2015.
8. Froehlich TE, Lanphear BP, Epstein JN, et al. Prevalence, Recognition, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in a National Sample of US Children. Arch Pediatr Adolesc Med. 2007;161(9):857-864
9. Fayyad J, De Graaf R, Kessler R, et al. Cross-national prevalence and correlates of adult attention-deficit/hyperactivity disorder. Br J Psychiatry. 2007;190(5):402–409.
10. Retz W, Retz-Junginger P, Thome J, et al. Pharmacological treatment of adult ADHD in Europe. World J Biol Psychiatry. 2011;12(suppl 1):89–94
11. Newcorn JH, Weiss M, Stein MA. The complexity of ADHD: diagnosis and treatment of the adult patient with comorbidities. CNS Spectr. 2007;12(suppl 12):1–14. quiz 15–16
12. Site Berkeley University. Disponível em http://www.berkeleywellness.com/healthy-mind/mood/article/adhd-overdiagnosed. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
13. Site Healthline. Disponível em http://www.healthline.com/health/adhd/adhd-misdiagnosis#2. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
14. Site Psiquiatria Unifesp. Disponível em http://www.psiquiatria.unifesp.br/sobre/noticias/exibir/?id=186. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
15. Site WebMD. Disponível em http://www.webmd.com/add-adhd/adhd-and-substance-abuse-is-there-a-link. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
16. Site WebMD. Disponível em http://www.webmd.com/add-adhd/adhd-and-substance-abuse-is-there-a-link?page=2. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
17. Site National Health Institutes (NIH). Disponível em: http://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/stimulant-adhd-medications-methylphenidate-amphetamines. Último acesso em 14 de setembro de 2015.

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