Diagnóstico do TDAH

Diagnóstico do TDAH

Você sabia que a nem toda pessoa agitada, desatenta ou impulsiva têm TDAH?

O correto diagnóstico do TDAH é um dos passos mais importantes para garantir a qualidade de vida das pessoas que sofrem com os sintomas do TDAH, de outras doenças que se parecem com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e mesmo de pessoas saudáveis que por razões distintas apresentam algum sinal ou sintoma do TDAH (o que não caracteriza o diagnóstico da doença).

Por isso, antes de entender como é feito e quais os desafios do diagnóstico do TDAH, é fundamental ter em mente que pessoas perfeitamente saudáveis podem apresentar agitação (hiperatividade), impulsividade e/ou desatenção em algum momento da vida. A manifestação desses sintomas de forma isolada e pontual não significa de forma alguma que uma criança, adolescente ou adulto tenha o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Entretanto, algumas pessoas apresentam esses sintomas combinados, de forma intensa e persistente ao longo do tempo, levando a prejuízos funcionais significativos. Nestes casos, pode haver o diagnóstico do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

“Os sinais de alerta para distúrbios comportamentais e/ou psicológicos não necessariamente o TDAH, mas sinais que devem fazer os pais buscarem ajuda especializada são dois. O primeiro são os prejuízos no funcionamento social, ou seja, sofrimento na vidinha social da criança que levam a dificuldades de relacionamento. E o segundo é o prejuízo no funcionamento acadêmico – e isso não significa tirar uma nota baixa em português ou matemática, trata-se de impacto negativo na vida da criança, que acarrete em sofrimento. O TDAH, como qualquer outra doença, é sinônimo de prejuízo na vida do paciente criança.”
Dr. Gustavo Teixeira, médico especialista em psiquiatria da infância e adolescência, professor visitante do Departamento de Educação Especial da Bridgewater State University (EUA) e editor-chefe do site www.comportamentoinfantil.com. – CRM RJ 5273634-1

Porque as imagens de ressonância magnética e biomarcadores cerebrais não são utilizados no diagnóstico do TDAH?

Tanto as imagens cerebrais de ressonância magnética e determinados marcadores biológicos são capazes de diferenciar características cerebrais de pessoas com e sem o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, mas o uso dessas ferramentas ainda é restrito ao ambiente das pesquisas clínicas. Apesar disso, os estudos estão evoluindo de forma promissora, e é possível que no futuro as imagens de ressonância e a presença de determinados biomarcadores possam não apenas determinar o diagnóstico do TDAH, como direcionar o melhor tipo de tratamento para cada paciente.1

Quais as etapas do diagnóstico do TDAH?

Diferentes especialidades médicas podem estar aptas a realizar o diagnóstico do TDAH, como pediatras, neurologistas (pediátricos e de adultos) e psiquiatras (infantis e de adultos). De forma geral, o diagnóstico consiste das etapas listadas abaixo, mas pode haver casos em que o médico conduza passos adicionais, a fim de excluir a existência de outras doenças e garantir o correto diagnóstico do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
 

  • Anamnese: é uma longa entrevista que o médico conduz com o paciente (e no caso de crianças e adolescentes também com seus pais). Nessa conversa, o médico busca conhecer em detalhes o histórico familiar e de saúde do paciente, bem como as razões que levaram à busca do especialista. O médico faz uma averiguação profunda, que inclui desde a qualidade da alimentação e do sono, as etapas do desenvolvimento e até informações sobre o estado atual do paciente e da família – se, por exemplo, estão passando por um divórcio, se alguém perdeu o emprego, se houve um falecimento na família, etc.
  • Aplicação de questionários de avaliação de sintomas: posteriormente, o médico pode conduzir a aplicação de questionários para avaliação de sintomas do TDAH descritos tanto na Classificação Internacional de Doenças, que está em sua décima revisão (CID-10), como no Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-5). Um exemplo de questionário de avaliação de sintomas de TDAH é o SNAP-IV2-5 que foi construído a partir do DSM-5 – o manual foi desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria e é utilizado em diversos países, inclusive no Brasil.2 O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade compreende uma lista com 18 sintomas, sendo nove deles relacionados à desatenção; 6 à hiperatividade; e 3 à impulsividade.1 O diagnóstico do TDAH em crianças somente pode ser realizado após a identificação de no mínimo 6 sintomas de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade; e em adultos no mínimo 5.6
  • Avaliação dos prejuízos causados pelos sintomas (que integra o DSM-5): vale destacar que não basta a análise dos sintomas isolada, pois o diagnóstico do TDAH, conforme preveem os questionários do DSM-5, considera a frequência e a intensidade dos prejuízos causados pelos sintomas no dia a dia dos pacientes, em diferentes ambientes (na escola, em casa, no trabalho, durante brincadeiras…).
  • Exclusão ou fechamento do diagnóstico. Se após a avaliação minuciosa das informações e questionários aplicados, e a exclusão de outras doenças e condições que podem causar sintomas parecidos com os do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, caso o paciente se adeque aos critérios, ele deverá ser diagnosticado com TDAH e encaminhado para tratamento.7

Quanto tempo é necessário para o diagnóstico do TDAH?

Não há um consenso sobre o tempo mínimo ou máximo que um paciente deve ser avaliado pelo médico até que se confirme (ou se exclua) o diagnóstico do TDAH. Entretanto, por conta da complexidade e da abrangência dos questionários e critérios diagnósticos do TDAH, raramente é possível fechar o diagnóstico em uma única consulta. Há casos em que o médico leva meses até poder concluir o diagnóstico do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Atenção a situações e doenças cujos sintomas parecem “imitar” o TDAH

Sintomas que imitam TDAH

Nos primeiros anos de vida, a falta de atenção ou concentração pode ser resultado de algumas razões bastante conhecidas, mas que certas vezes acabam passando despercebidas. Problemas de audição e dificuldades de visão, por exemplo, podem levar as crianças a perder a atenção nas brincadeiras e em atividades escolares de forma mais rápida. Por isso, antes de concluir o diagnóstico do TDAH, o médico precisa excluir uma série de outros fatores que podem estar ocasionando os sintomas.

Paralelamente, há doenças como a dislexia e a depressão, que tanto podem estar associadas ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, como ter seu diagnóstico confundido, por conta da semelhança e/ou sobreposição de alguns sintomas. As chamadas comorbidades, doenças que podem estar relacionadas e aparecem de forma simultânea em um paciente, não apenas dificultam o diagnóstico do TDAH como podem interferir na resposta ao tratamento. Por isso, exigem atenção redobrada de todos os envolvidos.

“A família quando tomar consciência de um sinal de alerta, ou seja, de prejuízo na vida social ou acadêmica da criança ou adolescente deve buscar um serviço médico especializado. Nas cidades menores, esses serviços estão geralmente associados a hospitais escola em universidades e a departamentos de neuropediatria.”
Dr. Gustavo Teixeira, médico especialista em psiquiatria da infância e adolescência, professor visitante do Departamento de Educação Especial da Bridgewater State University (EUA) e editor-chefe do site www.comportamentoinfantil.com. – CRM RJ 5273634-1

Pais já diagnosticados com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade devem observar a manifestação dos sintomas em seus filhos com mais atenção.


Referências
1.Site Newsweek. Disponível em http://www.newsweek.com/can-mris-diagnose-adhd-255185 e http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23021477. Último acesso em 14 de setembro de 2015.
2. MATTOS, P. et al. Apresentação de uma versão em português para uso no Brasil do instrumento MTA-SNAP-IV de avaliação de sintomas de transtorno do déficit de atenção/hiperatividade e sintomas de transtorno desafiador e de oposição. Revista de psiquiatria do Rio Grande do Sul. vol.28 no.3 Porto Alegre Sept./Dec. 2006.
3. Swanson JM. School-based Assessments and Interventions for ADD Students. Irvine, CA: K.C. Press, 1992.
4. Swanson JM, Sandman CA, Deutsch C, Baren M. Methylphenidate hydrochloride given with or before breakfast: I. Behavioral, cognitive, and electrophysiologic effects. Pediatrics 1983; 72: 49–55.
5. Swanson JM, Kraemer HC, Hinshaw SP, Arnold LE, Conners CK, Abikoff HB, Clevenger W, Davies M, Elliott GR, Greenhill LL, Hechtman L, Hoza B, Jensen PS, March JS, Newcorn JH, Owens EB, Pelham WE, Schiller E, Severe JB, Simpson S, Vitiello B, Wells K, Wigal T, Wu M. Clinical relevance of the primary fi ndings of the MTA: success rates based on severity of ADHD and ODD symptoms at the end of treatment. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2001; 40: 168–79.
6. Site da Associação Brasileira de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Disponível em http://www.tdah.org.br/br/artigos/textos/item/964-entenda-o-tdah-nos-crit%C3%A9rios-do-dsm-v.html. Último acesso em 13 de agosto de 2015.
7. Site do National Institutes of Healyh. Disponível em http://www.nimh.nih.gov/health/publications/attention-deficit-hyperactivity-disorder/index.shtml#pub4. Último acesso em 14 de setembro de 2015.

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